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Mulher de 46 anos dá à luz em calçada de Governador Valadares sem saber que estava grávida; médica explica a chamada 'gravidez silenciosa'
Sem saber da gestação, mulher de 46 anos deu à luz na calçada em Governador Valadares. Especialista explica como casos raros como esse podem passar despercebidos.
21/05/2025 07h41
Por: Diego Jorge Fonte: Inter TV
Foto: João Marcos Lima/Inter TV dos Vales

Uma mulher, de 46 anos, deu à luz de forma inesperada na manhã de segunda-feira (19/05), na porta da garagem da casa onde trabalha como cuidadora de idosos, no Centro de Governador Valadares. Sem saber que estava grávida, ela entrou em trabalho de parto durante o expediente.

Andreia Oliveira dos Santos contou que, no ano passado, passou por um procedimento para colocação de balão intragástrico. Após cerca de cinco meses, retirou o balão por causa de incômodos e problemas intestinais. Mesmo depois da retirada, os sintomas continuaram, incluindo inchaço abdominal.

"Minha barriga começou a inchar, ficar grande, né? Só que eu não preocupei, eu achei que era problema de intestino", disse.
Na manhã do parto, ela sentiu dores lombares e um líquido começou a sair, mas acreditou que se tratava de outro episódio relacionado ao intestino.

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“Achei que era até fezes presas, que meu intestino tinha parado”, contou.
Ao tentar abrir o portão da casa para buscar ajuda, ela sentiu uma pressão intensa e percebeu que estava entrando em trabalho de parto.

“Quando eu cheguei no portão, eu senti uma pressão muito forte. Aí eu chamei a vizinha do lado. Quando eu falei: "Me ajuda aqui!" desceu um negócio. Quando eu olhei, era um menino. Caiu lá no chão e eu não sabia que estava grávida."
O parto aconteceu na calçada, na porta da garagem da residência, no centro da cidade. Vizinhos que estavam por perto ajudaram até a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que levou mãe e filho ao Hospital Municipal.

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O bebê, que recebeu o nome de Miguel Lucas, está bem. Ele já passou pelo teste do pezinho e está sendo amamentado pela mãe na maternidade.

Sem saber da gestação, Andreia não tinha nenhum item preparado para a chegada do bebê.

“Nem roupa eu tenho, vou ter que comprar tudo para esse menino. Foi uma surpresa.”
Ela também relatou que estava sem menstruar, o que associava à menopausa. Já os enjoos que sentiu no início foram atribuídos aos efeitos do balão intragástrico.

“Senti enjoo, mas como todo mundo que colocou balão gástrico também sentia, achei que era normal.”
Andreia é mãe de outros dois adolescentes, de 16 e 17 anos. A chegada repentina de Miguel Lucas surpreendeu toda a família.

Gravidez silenciosa e fator de confusão: o que explica um caso como esse?
De acordo com a ginecologista e obstetra Dra. Marcela Laender, especialista em ginecologia endócrina, o caso de Andreia se encaixa no que é chamado de gravidez silenciosa ou assintomática — uma condição rara em que os sinais clássicos da gestação não são percebidos pela mulher. Isso inclui sintomas como náuseas, aumento das mamas, alterações hormonais e a movimentação do feto.

Em alguns casos, o biotipo corporal pode dificultar a percepção do crescimento do útero. No caso de Andreia, a presença recente de um balão intragástrico confundiu ainda mais os sinais. Segundo a médica, todos os sintomas que poderiam indicar uma gravidez foram atribuídos ao procedimento. A paciente sentia náuseas e inchaço abdominal, mas acreditava que eram efeitos colaterais do balão.

"Todos os sinais que poderiam levá-la a desconfiar da gravidez, ela associou ao balão. (...) Ela teve náusea, mas achou que era por causa do procedimento. Sentiu a barriga endurecida, mas acreditou que eram problemas intestinais por conta do procedimento", afirmou.
Outro ponto importante foi a idade. Com 46 anos, Andreia imaginou estar entrando na menopausa ao notar a ausência de menstruação, o que também ajudou a afastar a possibilidade de gravidez. Porém, de acordo com Dra. Marcela, a menopausa só é confirmada após 12 meses consecutivos sem menstruação, e que, apesar de rara, a fertilidade ainda é possível nessa faixa etária.

Apesar do parto ter ocorrido sem complicações, a especialista alerta para os riscos de uma gestação sem acompanhamento pré-natal, especialmente em casos considerados de alto risco, como o de mulheres acima dos 40 anos. O pré-natal, segundo ela, é essencial para identificar precocemente condições como pré-eclâmpsia ou malformações congênitas.

“Ela teve sorte. A maioria das gestações vai bem, mas o pré-natal existe para detectar e prevenir complicações”, ressaltou.
Marcela destaca que a história de Andreia, embora com um final feliz, não deve ser encarada como exemplo.

“Não é porque uma mulher de 46 anos teve um parto tranquilo sem fazer pré-natal, que isso deve ser normalizado. É um caso raro, e foi justamente por isso que chamou atenção.”