Cultura A Travessia
Santa Maria de Itabira - A Travessia; Capítulo 20
Autor: Helton Santos – Capítulo 20
11/08/2025 23h40
Por: Helton Santos
A Travessia - Capítulo 20

No relato intenso de Arlete Guerra Bretas, a madrugada da tragédia em Santa Maria de Itabira ganha corpo e voz.

Da chuva tímida ao medo que virou lama, ela narra o avanço implacável da água, a destruição da ponte, o ônibus tombado, os resgates improvisados e o boato da barragem que fez a cidade correr mais uma vez.

É a história de quem viu tudo — e sobreviveu para contar.

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 Capítulo 20

O que vi com os meus olhos

(Relato de Arlete Guerra Bretas)

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Era madrugada, mas ninguém dormia. A chuva que começou tímida foi ganhando força, e o céu parecia se abrir sobre Santa Maria. Às 3h40 da manhã, o relógio marcava não apenas o tempo, mas o início do que jamais esqueceríamos.

Primeiramente era preciso acordar os vizinhos: acordem, corram… o rio está enchendo. 

Da garagem da minha casa, observei a água invadindo as ruas. A cada minuto, ela subia, engolia calçadas, paredes, janelas. Em pouco tempo, ultrapassava portas, invadia os corredores, os quartos, a casa toda. Foi aí que percebi que aquilo não era apenas uma enchente comum — era o medo tomando forma líquida, barrenta, ondas de lama invadindo nosso lar.

Corremos para o segundo andar, olhando o desespero lá fora. Ouvi gritos, vi moradores sendo resgatados, o barulho de telhas e objetos sendo arrastados pela correnteza enlameada. Algumas casas já não estavam de pé, outras tremiam como se suplicassem por socorro.

No meio da água, um morador nadava com dificuldade. Foi salvo por outros vizinhos que arriscaram suas vidas, formando um elo humano de coragem.

A ponte do Poção havia sido destruída. No lugar dela, restava um vazio de concreto e saudade. À sua frente, o ônibus escolar, que costumava trazer esperança para crianças da zona rural, jazia tombado e coberto de lama. Um símbolo da educação que também parou naquele dia.

A cada flash da lanterna ou luz improvisada, eu via a cidade que eu conhecia desde o meu nascimento, sendo levada. Não havia como conter as lágrimas. Não era apenas destruição — era história, era vida.

Vi pessoas de fé agradecendo por estarem vivas, mesmo diante de tamanha dor. Vi famílias perdendo tudo e ainda assim se abraçando, sustentando umas às outras como podiam. Vi, com os meus próprios olhos, o quanto somos frágeis — e o quanto somos fortes.

Quando o dia clareou, havia um silêncio estranho. Não era mais a mesma Santa Maria. Era uma cidade ferida, mas de pé. Uma travessia difícil havia começado — e todos nós estávamos dentro dela.
De repente, um grito: a barragem estourou. 
Corre, subam a escada da Vila. Vida em 1º lugar. O medo nos apavora. Será verdade? 
Melhor não arriscar. 

Boato desmentido. É hora de voltar pra casa, escorregando na lama. A vida continua. 
É tempo de recomeçar. 
Mas, por onde? 

Vai por todo lado. A lama tomou conta e trouxe medo, angústia, incerteza… 
E agora, José? 

Recomeçar… lavar… vida que segue. Até quando?

"O último capítulo da Travessia vem amanhã — um fim na página, mas não na memória."