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MPMG investiga vereador Luiz Carlos “de Ipoema” por supostos abusos contra servidores em Itabira

Inquérito civil apura denúncias de abordagens intimidatórias, filmagens sem autorização e divulgação de vídeos editados nas redes sociais

Helton Santos
Por: Helton Santos
13/03/2026 às 22h31
MPMG investiga vereador Luiz Carlos “de Ipoema” por supostos abusos contra servidores em Itabira

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) instaurou um inquérito civil para investigar o vereador Luiz Carlos de Souza, conhecido como “Luiz Carlos de Ipoema” (MDB), após denúncias de supostos abusos contra servidores públicos municipais durante fiscalizações em unidades de saúde de Itabira.

A decisão foi assinada pelo promotor de Justiça Jorge Victor Cunha Barretto da Silva, da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público e da Probidade Administrativa da Comarca de Itabira.

Segundo o despacho, o procedimento foi aberto para apurar suposto desvio de finalidade em “investigações individuais”, consideradas arbitrárias, realizadas pelo vereador em serviços públicos do município.

De acordo com o Ministério Público, as denúncias indicam que o parlamentar teria abordado servidores de forma intimidatória, realizado filmagens sem autorização e posteriormente publicado vídeos editados nas redes sociais, expondo funcionários públicos.

“O vereador teria praticado, em tese, de forma reiterada, condutas graves e incompatíveis com o decoro parlamentar, consistentes em abordar de forma vexatória e intimidatória servidores públicos municipais (…) realizando filmagens sem autorização e divulgando posteriormente vídeos editados e manipulados”, afirma o documento do MPMG.


Quatro episódios motivaram a investigação

O despacho reúne quatro situações registradas em boletins de ocorrência e denúncias formais, envolvendo momentos distintos em unidades de saúde e outros serviços públicos de Itabira.

Abordagem a servidora em Ipoema

O primeiro caso ocorreu em 24 de setembro de 2025, no distrito de Ipoema. Segundo a denúncia, o vereador entrou no local de trabalho da servidora Priscila Ribeiro Oliveira e passou a acusá-la publicamente de abandono de função e de receber salário sem cumprir a jornada de trabalho.

De acordo com o Ministério Público, o parlamentar teria iniciado uma suposta “investigação” sem autorização formal da Câmara Municipal ou abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito.

Durante a abordagem, o vereador teria filmado a servidora sem consentimento. O documento aponta ainda que pacientes presentes na unidade teriam defendido a profissional, afirmando que ela estava cumprindo suas funções normalmente.

Entretanto, segundo o MPMG, essas manifestações favoráveis teriam sido retiradas do vídeo posteriormente publicado nas redes sociais do parlamentar.

A publicação teria gerado grande repercussão e comentários ofensivos direcionados à servidora.

Acusação de uso de pacientes como “cobaias”

Outro episódio ocorreu em maio de 2025 e envolve a enfermeira Fernanda Maria Santos Ferreira.

A profissional relatou que realizava uma visita domiciliar acompanhada de um acadêmico de medicina, dentro das diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e com autorização do paciente.

Posteriormente, um vídeo divulgado nas redes sociais passou a acusar a equipe de utilizar pacientes como “cobaias”. Segundo o Ministério Público, o vereador teria referendado as acusações e criticado o serviço de saúde sem ouvir a versão da profissional.

A enfermeira tentou contato com o parlamentar para esclarecer os fatos, mas foi informada de que o assunto deveria ser tratado apenas na Justiça ou no Legislativo.

Exposição de hospital nas redes sociais

O terceiro caso ocorreu em 8 de setembro de 2025, envolvendo o Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD).

Segundo o despacho, uma paciente insatisfeita com atendimento acionou o vereador, que compareceu ao hospital e gravou um vídeo com críticas à unidade.

O material foi publicado nas redes sociais expondo as queixas da paciente e também condições das instalações físicas e de higiene da unidade hospitalar.

Embora o episódio não envolva diretamente um servidor específico, o Ministério Público avalia que o caso demonstra um padrão de atuação do parlamentar ao utilizar redes sociais para expor situações relacionadas ao serviço público.

Tentativa de fiscalização no Centro de Reabilitação

Outro episódio citado ocorreu em 7 de maio de 2025, no Centro de Reabilitação de Saúde de Itabira.

Segundo as servidoras Thereza Cristina Oliveira Andrade e Adriana Coelho Dias, o vereador tentou realizar fiscalização no setor de hidroterapia, onde existe uma piscina ainda não em funcionamento.

As profissionais informaram que a visita deveria seguir procedimentos administrativos, com ofício e agendamento prévio.

De acordo com o relato, diante da negativa para acesso imediato, a assessora do vereador teria iniciado filmagens das servidoras mesmo após pedido para interromper a gravação.


MP aponta possível abuso de prerrogativas

Na análise jurídica, o Ministério Público afirma que a fiscalização parlamentar possui limites legais e não autoriza ações individuais fora dos procedimentos institucionais.

“A fiscalização parlamentar (…) não autoriza atuação como investigador individual, com diligências pessoais, filmagens vexatórias e acusações à margem dos procedimentos institucionais”, destacou o promotor.

Segundo o documento, as condutas podem configurar infração político-administrativa e quebra de decoro parlamentar.


Possíveis crimes investigados

Além da esfera política, o Ministério Público também identificou indícios de possíveis crimes, entre eles:

  • abuso de autoridade;

  • constrangimento ilegal;

  • desacato.

O promotor também cita a possibilidade de improbidade administrativa, caso fique comprovado que o vereador utilizou o mandato para exposição pública de servidores e promoção pessoal.


Câmara poderá analisar cassação

Entre as medidas determinadas está o envio de ofício à Câmara Municipal de Itabira, que deverá informar se existe Comissão de Ética e Decoro Parlamentar e avaliar a abertura de procedimento disciplinar contra o vereador.

Caso instaurado, o processo poderá ouvir servidores, testemunhas e outros envolvidos.


Polícia Civil abrirá inquérito

O Ministério Público também requisitou à Polícia Civil de Minas Gerais a abertura de inquérito policial para apurar possíveis crimes.

A investigação deverá incluir:

  • oitiva das vítimas;

  • depoimento do vereador;

  • identificação de testemunhas;

  • análise técnica dos vídeos publicados nas redes sociais.

Também foi determinada perícia nos conteúdos divulgados no Instagram do parlamentar, para verificar possível edição ou manipulação das imagens.

Vereador terá prazo para defesa

O vereador Luiz Carlos de Souza será notificado pessoalmente e terá 15 dias para apresentar defesa por escrito, podendo anexar documentos e indicar testemunhas.

O Ministério Público destacou que o silêncio do parlamentar não será interpretado como admissão de culpa.


Servidoras também serão ouvidas

O despacho determina ainda a notificação das servidoras citadas nas denúncias:

  • Priscila Ribeiro Oliveira

  • Fernanda Maria Santos Ferreira

  • Thereza Cristina Oliveira Andrade

  • Adriana Coelho Dias

Elas deverão prestar declarações e apresentar eventuais provas.


Prazo inicial de 90 dias

O Ministério Público estabeleceu prazo inicial de 90 dias para retorno das diligências, quando será feita nova análise dos elementos coletados na investigação.

Espaço aberto para manifestação

A reportagem procurou o vereador Luiz Carlos de Souza, conhecido como Luiz Carlos de Ipoema, para comentar a instauração do inquérito civil e as denúncias apresentadas.

Até o momento da publicação desta matéria, não houve retorno.

O espaço permanece aberto para manifestação do parlamentar. Caso ele envie posicionamento ou esclarecimentos, a matéria poderá ser atualizada.

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