
Vinte quatro horas é o tempo que separou a morte entre mãe e filha, em Itabira, na Região Central de Minas. A trajetória da vida que nos acostumou a ver os filhos se despedindo dos pais agiu diferente. A professora Gisele Andrade Félix, de 53 anos, partiu primeiro. No dia seguinte, a mãe dela, Gemima Andrade Félix, de 72 anos, foi quem se despediu da família. Ambas morreram de Covid-19.
Gemima se mantinha em isolamento social, com medo da pandemia, mas decidiu abrir uma exceção e ir ao aniversário de um ano das bisnetas. Com os sintomas leves, ainda não tinha sido diagnosticada com a doença.
“Seria um momento de rever a família. O ambiente era considerado controlado. Só teriam alguns familiares”, disse Wesley Félix, filho de Gisele e neto de Gemima.
Lá, ela reencontrou a filha. Acostumadas ao convívio diário, tiveram que se distanciar no último ano por causa da pandemia.

“Elas estavam apavoradas com a pandemia. O reencontro familiar se fazia necessário. As crianças nasceram durante a pandemia e queríamos celebrar o aniversário delas, apenas com os mais próximos. Pelos exames e início dos sintomas, pode ser nesse dia que minha mãe pegou a doença da minha avó”, falou Félix.
Dias depois da festa em família, os sintomas começaram. Gemima se recuperava bem em casa, enquanto a Gisele precisou ser internada, no Hospital Nossa Senhora das Dores, em Itabira, com falta de ar. A asma presente na infância e na adolescência dela não se manifestava na fase adulta, mas segundo Félix, pode ter agravado a doença.
“Nunca imaginei minha mãe nesta situação. Ela era uma fortaleza, tinha o espírito de liderança. Era professora infantil. Tudo virava festa com ela. A gente ouvia histórias, se divertia. Ainda é muito difícil pensar que tudo isso aconteceu”, disse ele.
No dia 1º de março, Gisele precisou ser intubada e no dia 3, não resistiu e morreu. Gemima foi internada na mesma UTI e no mesmo dia em que a filha foi intubada. No dia 4, também, não resistiu a doença.
“O médico nos ligou de madrugada, falando que minha mãe tinha morrido. Falou para levar os documentos e já avisou da morte. Foi insensível, mas acredito que ele já estava exausto. Enterramos minha mãe com caixão lacrado. Não pude me despedir dela direito. É uma dor que não desejo para ninguém”, contou Félix.
Após o enterro da mãe, outra ligação. Dessa vez, a avó, Gemima, havia perdido a luta contra a Covid-19. “Eu não tinha mais força. Meus tios foram até o hospital e estávamos sem compreender tudo o que estava acontecendo. Minha mãe e minha avó eram a base da família. As duas eram muito amadas. A dor é muito forte”.