
Mesmo após sofrer uma overdose, ter danos cerebrais e cegueira parcial em 2018, a cantora americana Demi Lovato revelou que ainda não consegue se manter totalmente afastada das drogas e faz uso de álcool e maconha. O depoimento está no documentário "Demi Lovato: Dancing with the Devil", série que estreia na próxima terça-feira (23).
A série também revela detalhes da agressão sexual sofrida por Lovato. Ela afirma ter perdido a virgindade em um estupro quando ainda era adolescente.
A dificuldade de Lovato de se livrar das substâncias que tanto lhe causaram mal é algo que aflige milhões de pessoas. De acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas de 2020, feito pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), mais de 35 milhões de pessoas sofrem de transtornos associados ao uso de drogas. Isso significa que o padrão de consumo de drogas dessas pessoas pode ser classificado como dependência e exigir tratamento especializado.
No documentário, a cantora revela que "acabou com as coisas que vão me matar", mas que ela ainda bebe álcool e fuma maconha com moderação.Dificuldade em superar o vício
A dependência química é uma doença do cérebro e está relacionada com o sistema de recompensa do nosso sistema nervoso. Nosso sistema nervoso é constituído de células nervosas (neurônios) que se comunicam através de sinais elétricos e sinais químicos, chamados de neurotransmissores, que enviam informações ao corpo.
Um dos principais neurotransmissores do corpo humano é a dopamina, responsável pela sensação de prazer. “Sempre que experimentamos algo prazeroso, como comer ou fazer sexo, os neurônios disparam uma sensação de prazer e somos incentivados a repetir a ação. É o que chamamos de sistema de recompensa”, explica o psiquiatra Ricardo Amaral, coordenador do Programa de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP).
O sistema de recompensa pode ser ativado por diferentes situações, como comer, fazer sexo, jogar videogame. “As drogas ativam rapidamente o sistema de recompensa. A diferença entre ativações normais e por drogas altamente viciantes é a intensidade e a velocidade”, explica Fábio Porto, neurologista do Hospital das Clínicas de São Paulo.
A dependência acontece quando o desejo incontrolável se sobrepõe ao prazer. “O estímulo que a substância produz no cérebro dificilmente será obtido com outras experiências e, com o uso contínuo, é possível que a pessoa fique muito vinculada emocionalmente à substância e deixe de fazer outras atividades que não trazem tanto prazer”, explica o psiquiatra Ricardo Amaral.
Na dependência, a pessoa perde a capacidade de lidar com problemas, a capacidade de decisão e de organização.
Tratamento
O desafio para superar o vício passa por intervenções medicamentosas e terapêuticas que variam conforme a substância e histórico do paciente.