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Engenheiro da Vale pressionou auditorias a atestarem estabilidade da barragem em Brumadinho e diretoria sabia das irregularidades, afirma PF

Segundo o delegado, Cristiano Campidelli, provas como e-mails e telefonemas foram colhidos e mostraram várias contradições.

Diego Jorge
Por: Diego Jorge Fonte: Rádio CBN
27/11/2021 às 16h42 Atualizada em 27/11/2021 às 16h49
Engenheiro da Vale pressionou auditorias a atestarem estabilidade da barragem em Brumadinho e diretoria sabia das irregularidades, afirma PF

Em entrevista exclusiva à rádio CBN, o delegado da Polícia Federal, Cristiano Campidelli, afirmou que engenheiro da Vale participou da pressão pra que as auditorias contratadas pela mineradora atestassem a estabilidade dos reservatórios da barragem Córrego do Feijão, em Brumadinho, a qualquer custo. Provas colhidas pela PF também mostram que a alta cúpula da Vale sabia das irregularidades.

O delegado contou ainda que o engenheiro, indiciado pela tragédia, chegou a fazer um mestrado sobre barragens à montante e os riscos de garantir a estabilidade dessas estruturas, abaixo do fator de segurança.

A investigação da Polícia Federal sobre as responsabilidades pelo rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, que vitimou 270 pessoas, apontou que um dos engenheiros indiciados no inquérito, chegou a criticar a garantia de estabilidade dessas estruturas abaixo do fator de segurança.

Mas, pouco tempo depois, o mesmo funcionário passou a pressionar as auditorias contratadas pela mineradora, pra que atestassem a estabilidade dos reservatórios de rejeitos, a qualquer custo.

Segundo o delegado Cristiano Campidelli, durante as investigações, foram colhidos e-mails e mensagens de telefone dos envolvidos, que mostram várias contradições. O engenheiro citado chegou a demostrar no mestrado que essas estruturas não poderiam ter estabilidade atestada abaixo de 1.2, pois o risco era grande.

O funcionário da Vale chegou a trocar mensagens com um amigo, após o rompimento da barragem de Mariana, em 2015, que tinha o mesmo método de construção, apontando os riscos desse tipo de avaliação.

Mas, de acordo com o delegado, pouco tempo depois, o engenheiro, mesmo com todo o conhecimento, mudou de postura e passou a ignorar os riscos.

"Essa mesma pessoa, depois, foi a pessoa que participou da pressão contra uma das empresas, pra que ela mudasse o método, ela não acatasse o método de Olsen, que foi defendido por ele na dissertação de mestrado. Ele força essa empresa, essa empresa não aceita mudar e é dispensada. Uma segunda empresa, que havia declarado a estabilidade da barragem 1 (de Brumadinho), entre setembro de 2017 e março de 2018, com base em dados inconsistentes da Vale, ao saber desse fator de segurança, ela fala quero mais informações. Ele mesmo manda e-mail pra essa empresa dizendo "você está dispensada por divergência de critérios".

A Polícia Federal também analisou mensagens trocadas entre os altos diretores da Vale. As conversas apontaram que toda a cúpula da empresa sabia dos riscos da barragem de Brumadinho e de outras 9 estruturas semelhantes. Mesmo assim, os executivos pressionaram para que os reservatórios tivessem a estabilidade garantida, de qualquer maneira, pra não paralisar as operações dos complexos minerários.

O delegado Cristiano Campidelli relata que mesmo após o rompimento da barragem em Brumadinho, a empresa manteve a mesma conduta.

"Tem uma empresa que era consultora da Vale, que poucos dias depois do rompimento, nós também apreendemos o celular desse diretor dessa empresa e ele reclama com o outro membro da empresa, dizendo, "olha, o fulano de tal, responsável pela barragem de Gongo Soco, tá me pressionando aqui, querendo mudar o meu laudo". Isso tinha poucos dias do rompimento da barragem de Brumadinho, um outro funcionário da Vale tentando mudar o laudo, que não queria atestar a estabilidade da barragem de Gongo Soco. Então isso mostra que isso era uma diretriz da empresa, que eu espero que tenha mudado. Mas a Vale, à época, trabalhava dessa forma, eu quero a declaração de estabilidade, pra que? Pra quando acontecesse o rompimento, a empresa pudesse apresentar o documento."

O inquérito da Polícia Federal indiciou 19 pessoas ligadas à Vale e à TÜV Sud, que atestaram a estabilidade da barragem. Elas vão responder por homicídio com dolo eventual de 270 pessoas, quando não há intenção de matar, mas se assume o risco. As empresas também foram indiciadas por crimes ambientais e por emitirem declarações de estabilidade falsas.

A Vale disse, em nota, que sempre norteou suas atividades por premissas de segurança, e que nunca se evidenciou nenhum cenário que indicasse o risco iminente de ruptura da barragem.

A TUV SUD disse que nao vai comentar o inquérito da Polícia Federal, antes de avaliá-lo.

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