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Chuvas Tragédia

Isolamento aprofunda drama após enchentes em Santa Maria de Itabira

Comunidade quilombola devastada enfrenta dificuldade até para receber doações. Socorro vem dos vizinhos ou em comboios

24/02/2021 10h02 Atualizada há 2 meses
Por: Redação Fonte: Mateus Parreiras/EM
A casa de Patrícia, transformada em ilha pela enchente do córrego: 'Ficamos aqui segurando o que sobrou das enchentes para não ficar sem e ter de pedir', diz a mulher (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
A casa de Patrícia, transformada em ilha pela enchente do córrego: 'Ficamos aqui segurando o que sobrou das enchentes para não ficar sem e ter de pedir', diz a mulher (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

Da janela de madeira que fornece a única iluminação da casa sem eletricidade, Patrícia da Silva, de 28 anos, observa sinais de alento. Uma revoada de pássaros ao longe, seguida de nuvens de poeira subindo atrás dos montes são indícios de um comboio de voluntários em veículos 4x4 vencendo os 5 quilômetros de estradas destruídas de Santa Maria de Itabira até a comunidade quilombola do Barro Preto.

Trazem água, alimentos, medicamentos, produtos de higiene e itens de necessidade básica perdidos depois das chuvas que devastaram a cidade, deixando 160 desalojados e seis mortos, no último fim de semana. “A gente não sabe quando vai chegar a ajuda. Então ficamos aqui segurando o que sobrou das enchentes para não ficar sem e ter de pedir. Contamos muito mesmo é com a comunidade, que é unida”, disse a mulher, que mora com o marido e dois filhos.
 
comunidade quilombola do Barro Preto é uma das mais afetadas da área rural de Santa Maria de Itabira, ficando praticamente isolada. Os ônibus do transporte público não conseguem mais chegar até lá, pois a estrada de terra e calçamentos foi praticamente desintegrada por enxurradas. Apenas veículos com tração nas quatro rodas conseguem vencer todo o trecho, até a ponte, onde a passagem ficou interrompida. Com isso, o fluxo de mantimentos e água é lento e inconstante para quem perdeu cobertores, colchões e depende da ajuda da própria comunidade.
“Por volta de 20 casas foram atingidas pelas enxurradas. Tiramos as famílias de lá e estão com parentes e amigos, mas precisamos que a prefeitura traga a Defesa Civil para dizer se podemos voltar para essas casas. Nossa estrada acabou e a ponte não aguenta mais a passagem de carros. O córrego comeu os aterros e a cabeceira. Estamos praticamente isolados”, definiu a líder comunitária Nilce Gonçalves da Silva.
 
A casa de Patrícia é a mais isolada. A força do córrego que abastece a comunidade foi tanta que o manancial abraçou o terreno dela, se dividindo em dois cursos e tornando a residência uma ilha. As águas levaram o banheiro, parte do alpendre, arrancaram bananeiras do quintal, o poste de luz e os encanamentos. Troncos foram rolados para servir de pontes apoiados nas margens recém-escavadas no barro pela erosão do córrego, mas os filhos de Patrícia seguem atalhos pelo leito do manancial para chegar na comunidade.
 
Durante o temporal de domingo, as famílias da comunidade viveram momentos de terror. Do colo da mãe, com água até a cintura, a única forma de salvar a pequena Ana, de 6 anos, foi passá-la pela janela da casa inundada para que vizinhos a levassem para a rua. A tempestade da madrugada do último domingo trouxe água e lama para dentro da residência, pressionando a estrutura simples entre a cheia do córrego do Barro Preto e as enxurradas que desciam dos morros da zona rural de Santa Maria de Itabira.
 
“A gente já estava no escuro, sem luz. Escutamos as paredes trincando. De repente, o córrego levou embora a minha cozinha. Saímos pela janela enquanto a parte de trás estava desabando. Todo mundo estava na rua, assustado. Minha filha chora até agora. Não dorme. Ninguém dorme. Só rezamos para a chuva parar”, disse a mãe da menina, Jaqueline Silva Araújo.
A dona de casa Maria de Lourdes Silva Marconi, de 57, conta que a união da comunidade foi fundamental para salvar pessoas e pertences. “Acabou a luz e já ficamos preocupados por causa das chuvas. Um menininho chegou aqui correndo e nos chamou pedindo socorro para ajudar a salvar a casa. Chegamos lá era pau e pedra em cima da casa. Tivemos de cortar as grades dos portões para tirar fogão, botijão, a parede da casa caiu no córrego”, conta.
O município é um dos que mais sofre com as chuvas. Na área urbana, 500 casas foram atingidas, as principais vias ficaram cobertas de lama e três pontes que permitem a passagem de um lado para o outro do Rio Girau comprometidas. Ontem, moradores continuavam a remover a lama que invadiu as casas, garagens e quintais. Equipes de defesa civil e da prefeitura ajudam a desobstruir vias, organizar o fornecimento de mantimentos e cadastrar os atingidos. Ainda falta água e alimentos prontos, uma vez que muitos flagelados perderam fogões e não têm condições de preparar os alimentos recebidos.
 

Solidariedade em toda parte

Apenas uma ponte permite o acesso entre o Bairro Cidade Nova e o restante de Santa Maria de Itabira, depois da cheia do Rio Girau. O movimento de caminhões cheios de lama e móveis destruídos e dos carregamentos de mantimentos fazem dessa estrada um caminho de congestionamento constante, onde a chuva transforma tudo em lamaçal e o sol traz poeira. Entrar ou sair é um grande desafio para habitantes e agentes de defesa civil.
 
Diferente dos demais locais devastados, esse é um bairro de classe média alta. Até a casa do prefeito, Reinaldo das Dores Santos (PSD) foi invadida, teve um muro derrubado e vários estragos. “Estimamos que os prejuízos para a reconstrução da cidade cheguem a R$ 10 milhões. Foram ruas e muitas estruturas danificadas, as pontes e não temos sequer ainda os levantamentos da zona rural”, disse o prefeito.

 O gerente de projetos Elisio Fonseca tentou resgatar o máximo de pessoas que pôde: 'Foi um grande mutirão, com todos se ajudando'
(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Móveis caros e grandes, colchões de tamanhos queen e king, TVs de 60 polegadas, refrigeradores de duas portas e adorno. O gerente de projetos Elisio Fonseca, de 36 anos, tentou resgatar o máximo de pessoas que pôde s de requinte foram parar em pilhas de entulho arruinado pela lama nas portas das garagens das casas isoladas. O trabalho de limpeza do barro, lixo e detritos seguirá por muitos dias ainda, acreditam os moradores.
Como nos bairros menos privilegiados, a solidariedade possibilitou muitos salvamentos de vidas. quando as águas do Rio Girau avançaram e chegaram a mais de um metro e meio de altura. “A água estava invadindo a minha casa com muita rapidez. Deitei a geladeira para tentar bloquear a entrada da água e levei a minha sogra para a casa do vizinho, que tinha dois andares. Com ela salva, vesti um colete flutuante e comecei a pular os muros para tirar os vizinhos mais idosos de dentro de suas casas para ruas mais altas. Foi um grande mutirão, com todos se ajudando. Agora, depois dos salvamentos, nós ajudamos com a limpeza”, disse.
 
Até o médico da cidade, Ronald Garcia Dias, passou os dias limpando a casa depois de lama do Rio entrar na residência. “Eu estava em Conselheiro Lafaiete, quando um vizinho me ligou avisando que o rio transbordou e que minha casa estava debaixo da água. Vim correndo, na madrugada de domingo mesmo. Mas muitas barreiras caíram na estrada, e mesmo quando eram liberadas eu precisava me identificar para poder passar”, lembra Dias.

  médico Ronald Dias ainda tenta limpar a casa: 'Não tem uma só pessoa que não conheça alguém que teve prejuízos e sofrimento'
(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
 
O prejuízo sofrido no interior do imóvel também foi grande e o trabalho de limpeza, segundo médico, deverá durar ainda mais de uma semana. “Limpar essa lama é muito difícil. Ela tinge tudo que encosta. Parece que quanto mais você limpa mais ela se desdobra e mais lama aparece. Vai ser um trabalho de muitos dias para todo mundo. Quando comprei essa casa, me disseram que nunca tinha sofrido uma inundação, que a água dos rios só chegava perto mas nunca entrava na casa. Essa foi uma chuva muito fora do normal e todos na cidade estão sentindo. Não tem uma pessoa só que não conheça alguém que teve prejuízos e sofrimento”, disse.
 
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