
Ela era viva, cheia de vozes, de histórias, de gente. Mas, depois da tragédia, a Rua Antônio Dias se calou — e com ela, uma parte da cidade.
Casas nunca mais foram erguidas. Famílias ainda esperam. E a memória continua ali, firme, como as marcas que a lama não levou.
Capítulo 17
A Rua Antônio Dias sempre foi barulhenta. Crianças correndo atrás de bola, vizinhos conversando na porta, rádio alto vindo das janelas abertas.
Mas, depois da tragédia, aquela rua mudou de voz.
O som das brincadeiras deu lugar ao murmúrio das lembranças. Quem passa por ali ainda sente o peso de algo invisível. É como caminhar sobre uma história que insiste em se contar sozinha.
Casas, levadas pela lama, nunca foram reconstruídas. No lugar delas, ficaram terrenos vazios, marcas no chão e um vazio maior no coração de quem perdeu o lar.
Até hoje, famílias que viviam ali sobrevivem com o aluguel social — carregando nas costas a espera por uma promessa que não chegou.
E, à noite, quando a chuva cai fina, alguns fecham os olhos e juram ouvir passos correndo, gritos que o vento leva.
Mesmo que a rua esteja de pé, para muitos ela continua soterrada — não sob lama, mas sob memória.
As páginas não secaram. Amanhã tem mais.