
Em poucos minutos, a água transformou o lar de Sergineia em um telhado de sobrevivência. O que era projeto de vida virou silêncio coberto de lama. Uma história real da tragédia de 21 de fevereiro de 2021.
Capítulo 19
"Depoimento de Sergineia Batista Soares"
Entre as 23h e a meia-noite de sábado (20) para domingo (21), Sergineia e os vizinhos já estavam inquietos com a primeira enchente na rua. A água passou rápido, e a noite voltou a ser silenciosa. Mas, na madrugada, o silêncio foi rompido por gritos e portões batendo. O aviso era urgente: retirar carros e motos. O rio já transbordava.
Ela acordou o filho de 14 anos e o mandou para a casa da avó, num ponto mais alto. O marido, ao seu lado, tentava salvar ao menos os mantimentos recém-comprados, colocando-os nos armários altos. Mas era ilusão: o que vinha não poderia ser contido.
O banheiro cuspia água até pelo vaso sanitário. “Vamos embora daqui!”, ela gritou. Ao chegarem à porta, a barreira de um metro no portão já estava vencida pela correnteza. Não havia saída.
Entre gritos e água subindo, o marido encontrou uma escada e a ajudou a passar para a casa da mãe. Mas ali também a enchente avançava. A rua desapareceu — tudo era um rio furioso.
Com esforço e medo, subiram no telhado, de onde assistiram a cidade ser levada pela água. Casas tremiam. Vizinhos clamavam. O filho chorava. Ela, no alto, acreditou que era o fim, repetindo apenas: “Deus, tira a gente daqui”.
Quando a manhã chegou, a água começou a baixar. Desnorteada, ela só pensava em proteger o filho.Quando voltou para casa, dois dias depois, encontrou um cenário que jamais esqueceria: tudo coberto de lama, móveis revirados, paredes marcadas pela força da correnteza.
Sua casa — reformada do jeito que sempre sonhou — havia se transformado em ruínas. O lar que era seu refúgio agora exigiria coragem e força para começar de novo.
"O rio baixou, mas as histórias continuam. Amanhã, mais uma."